segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Back/s/lash




between one world and another
here and there
in and out
between
the heartbreak and the milkshake
between
the last and the next breakfast
after the earthquake
a look at and a thought of/off
the land/out/scape
the abyss/sense
the vert/ego
grammato/ontological delirium
back/baquic/ground
in time/s/pace

(EL, dez/2000)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Perfeição


um fruto cai no silêncio da noite
sazonado à plenitude
não resiste à atração da terra
e rompe

entre muitos que ficam
ele cai

todo glória e perfeição

no seu surdo encontro com o chão
chama para si o universo

está acabada a obra
e nada foi perturbado

(nov/1994)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Olhar de viés



tivera os olhos bem abertos
o real não teria esta rusga arredia
a pele do mundo talvez fosse mais lisa

tivera-os bem fechados
não ouviria o estrépito do gesto espasmódico
se intrometendo na visada involuntária

olhar inesperado

de esgueia


                                   


imagem                     
que     escorrega
             
 para o canto



         do mundo

                                                                  
num esgar
            apertado


no canto do olho


inesperado cisco


sobe à retina esgarçada
ali não fica mais que um átimo
suficiente para assombrar no porão
a perene imaginação sob o régard

e  num relâmpago irromper nas rachaduras do daydreaming

risco ruidoso que rasga o véu viscoso da vigília
distraída no limiar entre o céu e a bomba do posto de gasolina
entre o azul e o cartão de crédito


miragem de escanteio
                                      na visada da córnea
mirada de corner
                        diagonal
                                      deslize de íris oblíqua                                   
                                                                                              
pupila deslocada catando o pedaço de espaço que não coube no tamanho do instante:
espectro infame de um fantasma estrábico  a girar no globo vazado

não houvera desejos o dia seria raso
as pontas do olhar anguloso se encontrariam
o tempo não escorreria para dentro da moldura
e aquela imagem vesga não ficaria ali
presa de viés em vez de fugaz
seria soprada ao invés de cingir-se aos cílios
arranhando a superfície vítrea sob a pálpebra musgosa

(out/2010)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Novus orbis nascitur ordo




o fruto podre precipita
em toda sua vã glória corrupto
enquanto o velho visionário enclausurado
com voz surda o final abrupto antecipa
e da mais funda e ignota natureza
uma criança inocente grita

um novo Ulisses transfigurado
que conduzirá num périplo a humanidade fraca
em sua nave sob um novo fado
no sempre horizonte a mesma Ítaca
enquanto o mortal peso da incerteza
fará confundido
lado a lado
o certo e o errado
o rei e a massa
o vaso e o iconoclasta

o vaso certo o rei errado a massa iconoclasta


(mai/1996)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Na estrada




em frente camarada
tira de um alento
o teu mais caro sustento
do instante faz tua morada
fita ao longe o horizonte
o que foi sombra ontem
amanhã será nada

finge um sentimento
finca um pensamento
esquece o desalento
verifica o tempo
o rumo do vento
e pé na estrada

(abr/1985)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

As quatro estações



Primavera

tivéssemos tempo a perder
não seria crime minha Senhora
toda essa esquivez
sentaríamos plácidos
à margem do rio e ali ficaríamos a imaginar
mil  modos de amar
tu colherias frívola rara flor delicada
por entre trilhas sinuosas
eu recostado numa rocha
cantaria lamurioso minhas mágoas
às lácteas águas do rio celeste
assim
sem nunca nos encontrarmos
diante do vasto lago da eternidade
nosso amor cresceria lento como as grandes árvores

e resignado em esperar que estivesses madura
para dar teu fruto
quedar-me-ia diante de ti de mãos dadas
contemplando-me no raso espelho de teus olhos

mas não é assim cara Senhora
o fim de mais um dia me embriaga com a visão do paraíso
e dele me despeço sem tristeza ou alegria
que bom é viver!
tangerinas douradas pendem sobre minha testa
ao alcance de minhas mãos 
da doce vinha
minha taça está sempre cheia e eu vivo a sorvê-la

se uma flor se me oferece
que mais posso pretender senão colhê-la
antes que feneça ao sol da tarde






Verão
caríssima Senhora
que na silhueta de seu rosto eu vislumbre a miragem de uma raça exilada de uma estrela extinta
que seus olhos sussurrem em meu ouvido cumplicidades de um amor superstite em busca de um espelho
que sua boca, ainda que profanada por mil línguas, seja ardilosa o bastante para calar certas verdades e sutil o bastante para tecer o véu de algum encantamento.
nada de mãos níveas 
dedos inefáveis 
que nunca fiaram ou cozeram 
antes mãos que engendrem no pão de seus filhos a fome alada dos argonautas

que seus pés não tenham que ser gráceis como de alguma princesa vaporosa de contos persas mas devem necessariamente ter trilhado a desolação dos desertos
e seios generosos que aplaquem com o seu mel o fel de alguma dor de além-berço.
e pernas solícitas que se abram assim que eu peça 
mas se fechem quando eu não mereça
e  no seu regaço o navegante exausto encontre o mar da tranquilidade





Outono
venha Senhora
caminhemos ao longo dessa praia
gozemos juntos
esquecidos de nosso pecado
alguns instantes desse sol de fim de tarde

que mais posso lhe oferecer senão
pedaços de sonho e lapsos de felicidade com sabor ilícito?

o sol já não nos doura a pele
e à noite estaremos irremediavelmente separados
Senhora
deliberadamente esqueçamos
lancemos fora nossas máscaras
como criancinhas
banhemos nossos corpos
nas águas mornas deste instante

caminhemos descalços sobre a areia
seguros
nossas marcas serão lavadas
pelas vagas inconstantes
desse mar que nos absorve

assim diluídos
impossibilitados de querermos ser
a beleza mortal
contemplemos apenas
nossas mãos entrelaçadas




Inverno
vamos cruel senhora
disseque este meu humilde cadáver
os motivos que porventura encontrar
debaixo dos escombros daquilo que chamam paixão
pode classificar como as desrazões
do falecido que nunca soube decidir
entre não viver e amar
e a morte fez a escolha de condenar-nos
eu-fantasma e você-coisa morta
a não sentirmos mais a perplexidade fundamental de tudo que pulsa
agora enfim unidos na nulidade
de nossas mais sinceras desilusões
podemos aquiescer
e sentarmos silentes ao lado um do outro
contemplando nossa carência
sabendo que nunca mais daremos as mãos
ou sentiremos o hálito quente que prenuncia o beijo
não 
nunca mais segredaremos que somos um
serpenteando nossas línguas no enredo de um mortal abraço
ilhados e lassos chegamos ao fim

(2003)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Melancolia


Se o desgosto suplanta o gosto,
  largue o posto.
Sem drama, sem pranto, sem gemido.
Basta um suspiro.



Ser feliz, se fosse possível, seria errado. A felicidade ao céu pertence. Na terra o ato mais sublime é ser melancólico.



Melancolia sideral. O ser humano só deixará de ser melancólico quando encontrar Deus.



Esse negócio de macho e fêmea é coisa da terra. No espaço sideral seremos hermafroditas.